Mulheres do Agro 08-03-2026 | 8:00:00

Agricultoras de Chopinzinho transformam produção artesanal em fonte de renda no campo

Criada por agricultoras há quase quatro décadas, entidade cresceu, conquistou estrutura e hoje impulsiona renda, produção artesanal e protagonismo feminino no meio rural

Por: Francieli Galo

Origem da associação - A principal idealizadora do projeto, a agricultora Maria Tereza Simon Renor, explica que, além das barreiras culturais, havia também obstáculos básicos. “Muitas mulheres nem tinham documentos próprios. Usavam o CPF e o RG do marido. Tivemos que ajudar várias delas a regularizar a documentação para que pudessem participar das atividades e ter autonomia”, conta.
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Com o passar dos anos, a organização foi ganhando corpo. Hoje, a associação conta com espaço próprio e realiza semanalmente a Feira de Produtos Coloniais, onde as agricultoras comercializam alimentos artesanais e produtos da agricultura familiar. Parte da renda também vem do fornecimento para a merenda escolar das escolas municipais e estaduais de Chopinzinho e da região.
Associação de Mulheres Rurais de Chopinzinho. Foto: AMR


Produção e geração de renda - Além de fortalecer a renda das famílias, a associação também tem um papel importante na valorização da mulher rural. Quase quarenta anos depois da criação da entidade, a trajetória das agricultoras de Chopinzinho mostra que organização, persistência e apoio técnico podem transformar realidades e ampliar cada vez mais o protagonismo feminino no campo.

Ao longo dessa trajetória, o apoio da assistência técnica também teve papel importante para fortalecer a organização e ampliar as oportunidades para as agricultoras.

Mulheres também na extensão rural - A assistência técnica que a associação recebe também é realizada por uma mulher. Márcia de Andrade é extensionista rural e acompanha o grupo com orientações sobre gestão, acesso a políticas públicas, entre outras ações. Márcia diz que é gratificante acompanhar a trajetória dessas mulheres e ver de perto a evolução da associação. “O ambiente da agricultura ainda é majoritariamente masculino, e nós, mulheres, temos um desafio ainda maior para ocupar nosso espaço neste setor”, afirma.

Márcia integra a equipe do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (Iapar-Emater), responsável pela assistência técnica e extensão rural no estado. Ao longo dos 70 anos de atuação da instituição, o trabalho das mulheres no setor enfrentou diferentes barreiras, como restrições para dirigir, casar ou até mesmo usar calça durante o trabalho.Rose Pontes entrou na Acarpa — como o instituto era chamado no início das atividades — em 1971, para atuar na região de Cascavel, no Oeste do Estado. Na época, segundo ela, as mulheres não podiam usar calça nem dirigir. Também não era recomendado casar. “Acreditavam que o casamento ou a gravidez poderiam atrapalhar o trabalho”, lembra. Muitas profissionais acabavam sendo levadas a pedir demissão para casar ou ter filhos.

“Tudo era difícil. Além da questão das roupas, eu vivi uma espécie de reserva porque as extensionistas que trabalhavam na região eram todas brancas e eu tinha a pele mais escura. Ou seja, no meu caso havia ainda mais restrições”, recorda.

Com o passar dos anos, essas barreiras começaram a cair. “A extensão rural sempre foi muito conservadora. As mulheres ganhavam menos que os homens, porque diziam que não precisávamos ganhar bem. Em 1975 fizemos um primeiro plano de carreira, criando um perfil do extensionista e uma política de promoções válida para homens e mulheres. Tudo mudou quando o instituto começou a admitir extensionistas mulheres de nível superior. Gradativamente elas passaram a assumir chefias de escritórios e a reduzir as desigualdades de gênero”, observa.

Atualmente, no IDR-Paraná, entre os mais de 1.400 colaboradores, cerca de 36% são mulheres. Elas atuam em diferentes áreas, como veterinária, agronomia, administração, engenharia de alimentos, zootecnia, pesquisa, assistência social e engenharia florestal, entre outras funções.

Algumas já ocupam posições estratégicas na instituição, caso da diretora de Pesquisa, Vania Moda Cirino. A pesquisadora é responsável técnica pelo desenvolvimento de mais de 38 cultivares de feijão, que ajudaram a aumentar a produção e a renda de pequenas propriedades rurais, além de contribuir para consolidar o Paraná como líder nacional na produção do grão.

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Mulheres - Associação - Geração - Renda - Rural - Protagonismo - Feminino


Texto publicado originalmente em Capa
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